Filha,
Sua mamãe anda muito chorona e, a toda hora, querendo te dizer tantas coisas,
querendo te dar de presente os meus presentes, possivelmente, porque tenho,
em algum lugar longe e perto, medo de que se percam, de que você não os/me
tenha...
Mas não liga, não, meu amor. Com o tempo, você vai aprendendo a me chamar
de outros nomes além de linda e vai descobrir boba, da bobice que só os amores
maiores do mundo conferem, medrosa, do medo que só os tem muito e do
melhor a perder sentem, mas, principalmente, sortuda, porque é tudo muita muita
sorte, desde o início.
Nessa semana que passou, foi aniversário da sua bisa, da minha avó, que, no
outro dia, você explicava para o Vinicius que tinha virado estrelinha, mas só a
alma, que o corpo estava guardado num jardim cheio de flores... E eu gosto de
ouvir você falando dela, porque eu, todo dia, penso e nem tenho com quem falar
dela. Provavelmente você não vai lembrar do jeito que ela te olhava e te chamava
de neguinha, com a mesma voz que me chamava mais de vinte anos antes, mas
eu não vou esquecer nunca, porque era quando ela olhava para você que eu
encontrava, perdida em alguma tristeza e solidão, a avó que me fazia todas as
vontades, que fazia o melhor ovo frito com gema mole, arroz e batata frita do
mundo, que falava besteiras para eu rir, que via Silvio Santos na televisão
domingo e todas as novelas. Sinto tanta falta dela quanto de mim, me alegro
de ela ter tido tempo de me ver médica, de ter me visto mãe e conhecido você
e tenho absoluta certeza da felicidade, embora não tão grande, porque,
àquela altura, já não havia tanta felicidade possível, tenho certeza que ela
sentiu alegria e orgulho por mim e por você... Queria poder te contar dela o que
nem eu me lembro mais e, provavelmente, é mesmo para não esquecerque quero
falar. Mas nada nada pode mesmo dizer do sentimento com que ela me alimentou
durante todos aqueles anos de criança, todos os anos em que sempre tinha
sorvete de flocos para mim na sua casa e uma caneca sempre cheia de moedas,
em que ela me deixava tomar banho de banheira e molhar tudo, em que, já na
faculdade, eu dormia de tarde na sua cama, e eu quase me lembro do cheiro do
travesseiro... É com esse mesmo amor, filha, que vou alimentando e fazendo
crescer o nosso amor, é também com o que dela permanece em mim que sou sua
mãe, é um prazer e um orgulho saber que ela permanece, que mesmo que você
não se lembre, vai sempre saber dela, no mais importante e no mais especial...
Vovó Carmen morreu quando eu estava em São Paulo e, em nenhum outro dia,
foi tão sozinho estar lá como naquele. A distância de tantos motivos ficou
concreta e, na verdade, a solidão era em mim. Cuidei dela bem menos do que
ela cuidou de mim e não há nada que justifique, foi assim, o possível por tantas
razões. O cinza daquela tarde fria em São Paulo, dos muros que guardavam
sua casa, tão longe de mim, foi sumindo nesse ano completo em que ela já
não está neste mesmo mundo que a gente e foram voltando as cores do
quindão e da batata frita, da minha roupa branca indo para o hospital, dos seus
vestidinhos rosa, do casaquinho verde-bandeira que ela usava, das unhas sempre
pintadas de vermelho e nossa cozinha é cheia dos paninhos que ela um dia me
chamou na sua casa para me dar, herança querida da vovó que tinha a cozinha
sempre arrumada, a casa sempre limpíssima e que brigava comigo quando a
ponta do tapete ficava virada... com as cores no seu lugar, pude compreender
que o amor é que prevalece sobretudo, e que ela sabe que não a amei nenhum
milímetro menos do tanto que ela me amou, que ela continua em mim, que
continua também em você e vai estar sempre...
Hoje é dia 20 de julho, filha, dia do amigo, e, junto com uma família de filha, amor,
mãe, irmã, vó, vô e sobrinho, ter amigo, no tanto de conforto, alegria e cumplicidade,
faz parte do melhor da vida. Acho que você já sabe sobre isso e, outro dia, quando
voltou da casa da Duda, triste por deixar a sua amiga, me perguntou com bico:
“ô, mãe, você não tem saudade das suas amigas, não??”
Você anda assim, cheia de frases próprias e eu vou me apaixonando mais todo dia...
Te amo, filha, tanto que até doe, tanto que já chorei essa manhã inteira – de amor, como você diz.
Estou para sempre do seu lado.
Mamãe
Escrito por Maria Julia às 11:24 AM